Colorpixel - Gerenciamento de Cores

Perfil de Cor, Espaço de Cor e Espaço de Trabalho

No gerenciamento de cores, há muitas dúvidas sobre as diferenças entre perfil de cor, espaço de cor e espaço de trabalho, principalmente entre os usuários das ferramentas da Adobe. Esse artigo busca esclarecer o que são espaço de cor e espaço de trabalho e quais as relações entre esses termos e o perfil de cor. Outra contribuição deste texto é apresentar os espaços de cor mais populares e ajudar na seleção do melhor espaço para a sua necessidade. Ter conhecimento básico do que é um perfil de cor é fundamental para compreender bem esse artigo e, caso o leitor tenha alguma dúvida, sugerimos que acesse o nosso texto de introdução ao gerenciamento de cores, disponível neste link.

No contexto do gerenciamento de cores, o perfil de cor tem a função de descrever detalhadamente como são as cores de um equipamento ou de um arquivo de imagens. No caso dos equipamentos, os perfis devem informar as características específicas das cores produzidas pelo dispositivo, registrando todas as peculiaridades e eventuais distorções presentes em cada equipamento.

No caso de um arquivo de imagem, o perfil de cor pode ter duas funções distintas. Em primeiro lugar, o perfil anexado a um arquivo pode refletir o equipamento que gerou o arquivo ou que será o destinatário do arquivo, uma impressora por exemplo. Neste caso as cores do arquivo serão fieis as características, limitações e imperfeições do equipamento.

De outro modo, se queremos editar o arquivo ou que o mesmo possa ser utilizado em vários equipamentos distintos, desejamos que o perfil de cores anexado ao arquivo seja livre de imperfeições e que seja compatível com um grande número de equipamentos. Quando um perfil reflete as características de um dispositivo específico dizemos que o perfil é dependente de dispositivo. De outro modo, quando o perfil pode ser usado em um grande número de situações, dizemos que ele é independente de dispositivo.

Perfis de cor dependentes de dispositivo

Os perfis dependentes de dispositivo, como o nome indica, foram criados para refletir a característica de um equipamento específico ou de um grupo de equipamentos semelhantes. Cada imperfeição ou distorção no comportamento do equipamento fica registrada no perfil, como exemplifica a próxima figura, que mostra em um gráfico as variações presentes nos tons de um scanner. Vale ressaltar que se o scanner fosse “perfeito”, o que usualmente é uma situação irreal, a figura deveria mostrar três linhas idênticas impecavelmente retas.

Curvas de tonalidade de um scanner
Curvas de tonalidade de um scanner, exemplificando as imperfeições naturalmente presentes em equipamentos de captura ou reprodução de cores

Os perfis que acompanham um scanner ou uma impressora foram criados para refletir o comportamento típico desse scanner ou impressora. Esse perfil padrão que é disponibilizado pelo fabricante para os seus equipamentos muitas vezes são chamados de perfis enlatados, pois reflete o comportamento típico de um grande número de equipamentos. De outra forma, para os usuários e aplicações que exigem mais precisão, pode-se gerar perfis personalizados para um equipamento específico, que reflete as características exatas daquele equipamento. É comum que um equipamento possua mais de um perfil, seja enlatado ou personalizado. No caso de impressoras é comum a existência de um perfil para cada tipo de papel distinto. No caso de scanners, pode-se ter perfis para diferentes tipos de filmes, por exemplo, para emulsões da Fuji e da Kodak.

Um detalhe importante que passa desapercebido por muitos usuários de gerenciamento de cores é que os perfis CMYK sempre são dependentes de dispositivo, pois refletem um processo de impressão específico. Este é o motivo que deve-se usar perfis RGB, em particular perfis RGB independentes de dispositivo, quando gerar arquivos que serão usados em meios distintos, por exemplo na impressão offset e na web. Uma complicação adicional no uso de arquivos CMYK é que a conversão de cores entre dois perfis CMYK distintos muitas vezes exige softwares e perfis de cor especializados, chamados de perfis “device link” para converter as cores e elementos gráficos de um arquivo CMYK com perfeição. Tais softwares usualmente possuem custo bem elevado e esse desembolso é perfeitamente evitável se o fluxo de trabalho for baseado em arquivos RGB com perfis de cor indpendentes de dispositivo, como veremos a seguir.

Perfis de cor independentes de dispositivo

Os perfis independentes de dispositivos tiveram o seu uso disseminado com a inclusão de gerenciamento de cores no Photoshop em 1998. A partir da versão 6.0, o gerenciamento de cores não era mais um opcional no Photoshop e não há como desligá-lo. Com o gerenciamento de cores sempre ligado, cada arquivo sendo manipulado no Photoshop precisa ter sempre um perfil de cor associado. Lembre-se que cada conversão de cores normalmente necessita de dois perfis e como o gerenciamento de cores está sempre ligado, o Photoshop precisa de pelo menos um perfil para representar as cores do arquivo e outro perfil para o monitor, de modo a permitir que a imagem seja exibida.

Como o Photoshop optou por tornar obrigatório o uso do gerenciamento de cores, surgiu a necessidade da criação de perfis de cores genéricos, que possuísse cores uniformes, para que as edições realizadas nos valores da imagem, sobretudo em RGB, se refletissem de forma proporcional e harmoniosa nas cores do arquivo. Estes perfis de cores uniformes usualmente são descritos por equações matemáticas, que efetuam as conversões entre os valores RGB para os valores colorimétricos em CIE Lab ou em CIE XYZ de forma simples e direta.

Espaços de cor

Por serem baseados em equações matemáticas que definem as cores a partir da composição das suas cores primárias, os perfis independentes de dispositivo foram feitos a partir de um conceito já usado no meio acadêmico, o conceito de espaço de cor. Um espaço de cor é um modelo matemático que descreve por meio de equações como um conjunto de cores é representado e convertido para um sistema de cores absoluto, por exemplo, o CIE XYZ ou o CIE Lab. Quando falamos que o espaço de cores representa um conjunto de cores, isto significa que todos os espaços de cores tem limites nas cores que podem representar. O conjunto completo de cores que um espaço de cor pode representar é chamado de gamut ou gama de cores deste espaço de cor.

A definição completa de um espaço de cores envolve a definição dos valores colorimétricos das cores primárias e do branco usado pelo espaço de cor, bem como é feita a gradação entre os tons claros e escuros. Existem várias formas de fazer essa gradação, onde a mais popular é usar uma função exponencial conhecida informalmente como gamma, onde os valores de 1.8 e 2.2 para o gamma são os mais comuns.

Existem diversas opções de perfis independentes de dispositivo, ou espaços de cores, cada um projetado para um fim específico. Neste artigo iremos focar nos espaço de cores mais usados, que são o sRGB, o Adobe RGB (1998) e o ProPhoto RGB.

sRGB

O sRGB é o espaço de cores mais empregado na prática, sendo um espaço padronizado internacionalmente, possuindo inclusive muita semelhança com o padrão de cores para vídeo HDTV. Foi criado em 1998 pela HP e Microsoft como sendo um conjunto de cores que poderia ser produzido ou reproduzido por equipamentos de uso geral, para o público amador, tais como monitores, scanners e câmeras digitais. Este espaço de cores tornou-se popular, pois era compatível com os monitores CRT existentes na época da sua criação.

O uso do sRGB é indicado para imagens que serão usadas em sites web ou exibidos em vídeo, uma vez que é compatível com o sistema HDTV atual. Também é o espaço indicado para ser usado para o envio de arquivos para usuários que não tem conhecimento de gerenciamento de cores, pois as cores são representadas em um formato compatível com todos os equipamentos atuais.

A grande compatibilidade de cores alcançada pelo sRGB tem um preço, a sua gama de cores é a mais restrita entre os espaços de cores populares. Atualmente, praticamente todas as impressoras que conseguem imprimir uma gama de cores superior ao sRGB, havendo inclusive monitores que reproduzem cores mais vibrantes do que as presentes no sRGB. Ou seja, se o objetivo do seu trabalho é produzir cores impressas ou para serem reproduzidas em monitores mais avançados, o sRGB não é a melhor opção a ser adotada.

Adobe RGB (1998)

O espaço de cores Adobe RGB (1998), como o nome indica, foi desenvolvido pela Adobe em 1998 com o objetivo de englobar a gama de cores das impressoras CMYK. O Adobe RGB (1998) possui as mesmas cores primárias azul e vermelha do sRGB, diferenciando-se na verde, mais saturada, o que garante a inclusão de mais cores na região dos tons ciano e verde neste espaço de cor. A comparação entre a gama de cores do Adobe RGB (1998) e do sRGB é ilustrado na figura a seguir.

Gama de cores do sRGB e Adobe RGB (1998)
Gama de cores do sRGB e Adobe RGB (1998) em relação ao total de cores visíveis pelo olho humano

Se compararmos a gama de cores do Adobe RGB com as cores de um equipamento gráfico de impressão offset padrão, segundo a norma ISO 12647-2 adotada no Brasil, veremos que praticamente todas as cores desse processo de impressão são cobertas pelo Adobe RGB (1998). Apenas uma pequena faixa de cores entre os azuis e os verdes não é alcançado. A figura abaixo mostra a comparação da gama de cores do Adobe RGB com um equipamento de impressão offset que opera dentro da norma ISO 12647-2, que é o padrão brasileiro e internacional para esse tipo de impressão.

Gama de cores do Adobe RGB (1998) e uma equipamento de impressão offset
Gama de cores do Adobe RGB (1998) e uma equipamento industrial de impressão offset, segundo a norma ISO 12647-2, comparado com o total de cores visíveis pelo olho humano

ProPhoto RGB

O ProPhoto RGB foi proposto pela Kodak com o nome original de ROMM RGB em 2000. Foi desenvolvido com objetivo de criar um espaço de cores para armazenamento, manipulação e intercâmbio de imagens sem impor limitações à gama de cores da imagem. Para atingir esses objetivos, o ProPhoto RGB tem uma gama de cores muito grande, englobando grande parte das cores visíveis pelo olho humano, conforme mostra a figura a seguir.

Gama de cores dos espaços de cores sRGB e Adobe RGB (1998) e ProPhoto RGB
Gama de cores dos espaços sRGB, Adobe RGB (1998) e ProPhoto RGB quando comparados ao total de cores visíveis pelo olho humano

A imensa gama de cores do ProPhoto RGB, de início era vista por muitos como sendo um exagero, hoje em dia é uma necessidade real. Temos equipamentos de impressão capazes de reproduzir uma gama de cores muito grande. Por exemplo, na figura abaixo, temos a comparação das cores de uma impressora Epson Pro 9900, um equipamento profissional lançado em 2009 dotado de tintas laranja e verde para aumentar o alcance das cores reproduzidas, com o ProPhoto RGB. Como podemos ver claramente neste exemplo, já existem equipamentos cuja extensão cromática requer o uso de espaços de cor com grande volume de cores para que todo o seu potencial seja usado.

Gama de cores do ProPhoto RGB e da Impressora Epson Pro 9900
Gama de cores do ProPhoto RGB e de uma impressora Epson Pro 9900 comparadas com o total de cores visíveis pelo olho humano

O Prophoto RGB ficou popular com o crescimento do uso do formato RAW em câmeras digitais. Tornou-se a escolha natural dos fotógrafos que desejam preservar toda a gama de cores presente na imagem, uma vez que é um espaço com cores extremamente abrangentes. Muitos softwares de processamento RAW usam o ProPhoto RGB internamente como espaço de cores para a produção da imagem final, mesmo que esta imagem possua um espaço de cor com uma gama de cores mais limitada, por opção do usuário.

O uso do Prophoto RGB é muito recomendável mas deve ser empregado com muita atenção, principalmente pelos iniciantes. Por ser um espaço com uma gama de cores muito grande, para que não haja posterização nas transições de cores, é aconselhável restringir o seu uso a imagens representadas em 16 bits por pixel. Também deve-se ter muito cuidado no envio de arquivos com esse espaço de cores para usuários não familiarizados com gerenciamento de cores. Por ter cores primárias muito distintas do sRGB, que é a representação de cores mais provável dos equipamentos usados pela grande maioria dos usuários, se um arquivo com cores no formato do ProPhoto RGB for visualizado ou manipulado sem os recursos do gerenciamento de cores, certamente a aparência das cores será muito diferente da desejada.

Como o Prophoto é um espaço que pode exigir um fluxo de trabalho distinto quando é necessário converter as cores de uma imagem nesse espaço para o sRGB e o Adobe RGB, a Colorpixel desenvolveu perfis de cores especializados para esse fim, que podem ser obtidos aqui.

Espaços de trabalho ou Workspaces

O conceito de color workspace ou espaço de cor de trabalho foi introduzido pelo Photoshop, posteriormente incluído em outras ferramentas da Adobe, e nada mais é do que o nome do perfil de cor usado por default no Photoshop e demais ferramentas caso o arquivo sendo manipulado não possua um perfil associado a ele. O conceito de espaço de trabalho reflete bem a filosofia por detrás do uso de perfis independentes de dispositivo. Nesta abordagem, os arquivos são manipulados e armazenados com perfis independentes de dispositivo e somente são convertidos para um perfil dependente de dispositivo no último instante, usualmente gerando uma nova cópia do arquivo, onde o “original” é mantido em um espaço independente de dispositivo.

O Photoshop e as outras ferramentas da Adobe possuem workspaces para imagens RGB, CMYK e em tons de cinza, o que gera uma certa confusão, pois alguns usuários ficam com a impressão que o perfil usado como workspace CMYK é um espaço de cores independente de dispositivo. Como explicamos anteriormente, não existem espaços de cores independentes de dispositivo CMYK. O workspace CMYK apenas representa o espaço CMYK a ser usado por default nas ferramentas da Adobe, caso o a imagem CMYK não possua um perfil associado, que sempre será dependente de dispositivo.

Mesmo sabendo que o Photoshop atribui perfis default para os arquivos que não possuem perfil associado, recomendamos fortemente que todos os arquivos incluam um perfil de cor anexado. Esse cuidado elimina a possibilidade de erros no caso de mudanças na configuração do Photoshop, ou no envio do arquivo para usuários que usam configurações de cores distintas neste aplicativo.